sexta-feira, 19 de junho de 2015

A Língua dos Poderosos

Por que é tão difícil para aqueles que nasceram em famílias mais humildes dominar o chamado português culto? Com certeza não é porque são menos inteligentes, mas porque nasceram e convivem num ambiente em que essa língua não é real.
O linguista Marcos Bagno, em seu livro Preconceito Linguístico, mostra que a língua receitada pela gramática normativa é uma imposição das elites dominantes do País. Ela não foi escolhida como língua padrão por acaso. Aqueles que têm a hegemonia no campo político e econômico, por uma questão de puxar brasa para sua sardinha, a privilegiaram em detrimento dos diversos e legítimos falares brasileiros.
Existem inúmeras variedades da língua portuguesa no Brasil – todas legítimas e corretas do ponto de vista sociológico e funcional. Portanto, não há, como alguns advogam, supremacia de uma variedade como o chamado português culto ou língua padrão.
A internalização da ideia de que a língua da gramática normativa é única contribui para o aumento da sensação de pequenez por quem não nasceu em berço de ouro. Por isso, muitos se dizem “burros” e, portanto, sentem-se incapazes na hora de expressar o pensamento com medo de ser criticados e rotulados de ignorantes.
O ex-presidente Lula provou que competência para governar não está atrelada ao domínio da língua culta. A capacidade intelectual do ex-operário do setor metalúrgico que ascendeu ao principal posto do País derruba a tese de que apenas quem fala a língua socialmente valorizada está apto a dirigir uma nação. O presidente, usando o seu próprio português, tão rico quanto o outro, conquistou os plebeus e até mesmo uma parcela dos nobres, falando de igual para igual com a maioria do povo brasileiro.
É mais fácil, para quem nasceu num contexto privilegiado, dominar a sintaxe da língua culta, visto que, desde a mais tenra idade, vivenciou essa variedade no ambiente doméstico. Se uma criança da periferia ou da roça tivesse nascido em contexto semelhante, obviamente a sua língua natural seria outra e teria mais facilidade de aprender as nuances mais complexas da língua culta nas aulas de Português.
Por mais que alguém se orgulhe de saber empregar com maestria a morfossintaxe da língua padrão, nunca a dominará por completo, considerando que se trata de uma língua ideal, não de uma língua real, conforme o renomado linguista Sausurre demonstrou em meados do século XX.
A língua não é estática, como prescrevem os gramáticos. Ela varia de acordo com a época, a idade, o sexo, o grau de escolaridade e o contexto geográfico, econômico e social, e assim por diante. Por isso, é impossível haver homogeneidade linguística entre os falantes. Não dá para afinar todo mundo pelo mesmo diapasão, tampouco engessar o idioma, “última flor do Lácio, inculta e bela”.
Apesar dessa diversidade, cada falante, sobretudo os que vivem da comunicação e do ensino da língua, deve se empenhar para dominar o maior número possível de falares, a fim de adequar-se aos diversos contextos sociais. Nada justifica o comodismo e a preguiça.
Não se pode prescindir do estudo sistemático da língua padrão, por mais alienígena que seja para a maioria dos brasileiros, considerando não somente o seu valor social, mas também a necessidade de ombrear com os detentores do poder, que ditam as regras do jogo político, social e econômico, a fim de não se manter oprimido, discriminado e excluído.
Numa sociedade capitalista e neoliberal como a nossa, tudo é planejado para manter o status quo de uma oligarquia que mantém as rédeas do poder. Ninguém consegue, por exemplo, passar no concurso para auditor da Receita Federal, se não conhecer muito bem a gramática normativa. A mesma coisa ocorre nos vestibulares para os cursos mais prestigiados, como Direito e Medicina.
Para alguém das minorias obter, por exemplo, uma formação igual à do ministro Joaquim Barboza, ex-presidente eleito do Supremo Tribunal Federal, é preciso muito esforço pessoal, muito estudo, muita perseverança, tudo isso associado ao saber aproveitar as oportunidades.
É pura ignorância discriminar alguém por causa do não domínio da chamada língua padrão ou norma culta. No entanto, cada um de nós deveria se preocupar em aprender bem essa variedade, sem menosprezar as outras, pois disso depende uma boa convivência social.


                                                                                            Antônio de Souza Matos

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