terça-feira, 2 de setembro de 2014

Vencendo o medo do desconhecido


http://escolaabertaceteb.blogspot.com/2014/09/vencendo-o-medo-do-desconhecido.html

Vim participar de um curso na área de revisão textual aqui, em Brasília. Pensar em sair da comodidade da minha terra-natal, Boa Vista, e dirigir-me a uma cidade totalmente desconhecida assustava-me. Mas, a exemplo de Haw, uma das personagens da história “Quem mexeu no meu queijo?”, venci o medo e aventurei-me, vislumbrando a possibilidade de ampliar meus conhecimentos linguísticos. Desembarquei na capital do País na manhã do dia 18 de agosto, quando os termômetros do aeroporto marcavam 15 graus. 

Cansado da viagem, instalei-me num cubículo de uma pousada localizada na região central da cidade, na Asa Sul, onde havia reservado, por telefone, uma suíte. A princípio, a solidão quis me apavorar, mas orei, e Deus tranquilizou meu coração e me fez repousar em segurança em meio à quietude daquele lugar sombrio. Dois dias depois, mudei-me para outra pensão mais espaçosa, mais alegre e mais aconchegante. No primeiro dia de curso, antes de a aula começar, a coordenadora cumprimentou-me de modo cordial, ratificando a impressão que me causara por telefone. Deu-me boas vindas e orientou-me em relação aos cuidados que eu deveria tomar no trajeto do hotel até o Ceteb (Centro de Educação Tecnológica de Brasília) – uma instituição que atua há mais de quarenta e cinco anos na área de ensino técnico, nas modalidades presencial e a distância. Na sala de aula, a professora Maria Teresa Caballero Brügger, a Tetê, logo se apresentou e, de cara, conquistou os cursistas com seu jeito simples, espirituoso e gentil. Em seguida, a professora Ana Paula, sua auxiliar, fez o mesmo.  Com sua jovialidade, voz pausada e meiguice, ganhou também a simpatia de todos.  Depois, cada um de nós, alunos, teve de dizer seu nome e dar uma característica pessoal. Para minha surpresa, todos tínhamos algo em comum: o perfeccionismo. 

Não podia ser diferente, já que revisor é um sujeito que vive procurando erro para corrigir, claro, erro linguístico, textual.   De repente, eu me vi em cada um dos meus colegas: na sua ansiedade, na sua busca frenética pelo texto perfeito, na sua frustração, na sua perseverança. Não era mais o único ser esquizofrênico no universo. Não era mais um indivíduo enclausurado no seu próprio mundo. Era uma parte de um todo – de um todo complexo, mas altamente estimulante.  

Cá estava um simples servidor público de Roraima, talvez o menos populoso e o menos importante estado da Federação, no meio de pessoas inteligentes e perspicazes de uma das mais relevantes metrópoles brasileiras, o Distrito Federal, a sede do governo da República Federativa do Brasil – uma cidade planejada por um dos mais renomados arquitetos de todos os tempos: Oscar Niemeyer. Receei dizer algo tolo quando chegasse a minha vez de falar. Mas rasguei o véu, isso mesmo; não o verbo, como se expressam os que desconhecem os meandros da gramática normativa e dos manuais de redação e de estilo, como dizia eu antes do curso. Fui logo afirmando que tinha vindo de longe: de Roraima. Não mencionei minha timidez nem meu temor. Quiçá alguém tenha percebido. 

Tetê, a nossa mestra, a partir daquele dia, foi nos conduzindo pelos labirintos do papel do revisor, das normas técnicas, da regência, da concordância, da semântica, da estilística, da ortografia, da pontuação, do registro dos numerais. Como os ratinhos da fábula citada no início, fomos saboreando os nossos pedaços de queijo, esperando que o estoque não se esgotasse. Mas sempre as pilhas estavam ali. Quando pensávamos que havia escassez, ou quando já estávamos enjoando do cardápio, lá vinha a Tetê e nos oferecia um novo banquete: um tipo de queijo ainda mais saboroso.  

Aprendi, durante as nossas ininterruptas jornadas atrás do nosso quinhão, a admirar e a amar aqueles que caminhavam comigo, desde o mais simples até o de paladar mais exigente. Nessa busca coletiva, nessa troca de experiência, nesse mútuo estimular, reconheci, à medida que o tempo passava, que tinha valido a pena deixar o meu cantinho escondido aparentemente seguro e arriscar-me. Percebi que o desconhecido não precisa nos causar temor e nos paralisar. Vi que não sou diferente, embora não seja exatamente igual aos outros. Descobri um mundo encantado onde ninguém é senhor de tudo; onde uns dependem dos outros e se completam. Conheci a bondade em cada olhar, a compaixão em cada gesto, a ternura em cada sorriso, a gentileza em cada palavra. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer com um estrangeiro numa terra tão longínqua! 

Aquele homem tímido e medroso que aqui desembarcou há duas semanas já não existe mais. Ele desapareceu junto com a neblina fria daquela manhã. E, daqui a algumas horas, quando ele embarcar rumo à sua cidade-natal, levará em sua bagagem um pouquinho de cada um daqueles que teve o privilégio de conhecer; daqueles cuja lida principal é “lutar com palavras”.

Revisor de textos. E-mail: antonio.matos@ifrr.edu.br

Por Antônio Matos

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